Na plenitude de angústia, Graciliano me refaz pensamentos que pensei serem profundos. Como se escaldasse sentimentos dentro de um mísero corpo. Angústia, tristeza, nostalgia, viveres da carne e do fundo da alma...O que minha mente visualizou como sombrio ou profano, talvez possa ter um caráter ainda mais insolúvel. E arrasador. É como olhar pela janela os viventes tão paradoxais, que mostram a flor, mas que são a pele, a carne e seus pecados e desejos sortidos.

Angústia é a história de Luís da Silva, um tímido e solitário funcionário público, que vive num bairro distante e pobre, numa casa velha, cheia de ratos. Além de trabalhar o dia todo na repartição, à noite, para ganhar uns trocados, escreve textos sob encomenda para um jornal. Após trinta dias de cama, curando-se de uma enfermidade, causada por um abalo nervoso, se vê de pé, retornando ao trabalho e às atividades normais. Nesse processo, pelo fio da memória, resgata o passado, na tentativa de reconstruir o que havia ocorrido.

E nesse caldaloso momento de fortes sentimentos, Graciliano me faz entrar mais uma vez no fundo da alma. Escuto Tchaikovsky e acalento a mim mesma...

"Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas
com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos
estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei,
ainda nos podemos mexer"


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